domingo, 16 de março de 2014



EDUCAÇÃO DA PESSOA COM SURDEZ: algumas aproximações

A educação das pessoas com Surdez ao logo da história adotou diferentes métodos e concepções de ensino, essa mistura de método ocorria geralmente em busca de uma linguagem que estabelecesse um canal de comunicação adequado para o Surdo, na maioria das vezes com um discurso focado na deficiência e não na pessoa. Pode-se observar a presença desses modelos de educação até os dias atuais.
Na Antiguidade os gregos e romanos consideravam os surdos incapazes. De acordo com Honora, Frizanco (2009, p.19) os surdos “não tinham direito a testamento, à educação e a frequentar os mesmos lugares que os ouvintes. Até o século XII, os Surdos eram privados até mesmo de se casarem”. Essa incapacidade fora reforçada em diferentes discursos, por exemplo, Aristotéles afirmava que audição eram a função mais importante para a educação.(HONORA, FRIZANCO,2009, p.19).
De acordo com Honora, Frizanco (2009, p.19) na Idade Média a igreja católica tentou educar as pessoas com surdez, movidas por dois fatores . O Primeiro é que a igreja católica considerava que o homem fora criado a “ imagem e semelhança de Deus” e os surdos dentro desse padrão não considerados humanos; o segundo fator é que os nobres dentro dos seus feudos acabaram casando-se entre si para não dividir a herança com outras famílias e dessa união apareceram muitos filhos surdos. Para resolver esse problema a igreja católica convidou os monges que estavam em clausura e fizeram voto de silêncio para serem preceptores dos surdos nobres, já que a igreja precisava manter uma boa relação com os nobres.
A meu ver, esse discurso da incapacidade tem sido reforçado implicitamente até hoje quando sugere-se método de ensino que não respeitam as particularidade e necessidades individual de cada pessoa com surdez, ou quando sugere-se a implantação de escola só para surdos, reforçando um movimento implícito de guetificação.
O ensino das pessoas com surdez, centrado nos modelos arcaicos de educação, servem apenas para reforçar as desigualdades e desvalorizar o potencial e particularidades da pessoa com surdez. Na perspectiva da educação inclusiva deve-se valorizar o potencial humano e adotar práticas que atendam as diferenças humanas. Conclui-se, entretanto, que o que queremos, como bem explica Damasio( 2005), não é a substituição de classes especiais excludentes por uma escola comum excludente, o que se pretende quando fala-se em inclusão é promover mudanças na estrutura da atual escola e na sociedade, baseando-se em uma “nova concepção de homem, de mundo, de conhecimento, de sociedade, de educação e de escola, pautada na heterogeneidade, na não dualidade, na não fragmentação, nas diferenças multiculturais e no que existe de original e singular nos seres humanos”.( DAMASIO, 2005,p.109).
Assim, “O AEE PS deve ser visto como construção e reconstrução de experiências e vivências conceituais, em que a organização do conteúdo curricular não deve estar pautada numa visão linear, hierarquizada e fragmentada do conhecimento” (DAMASIO, 2005, p.27). Esse é o discurso que embasa a educação especial dentro do paradigma da inclusão.
De acordo com Damasio (2005) “A negação de preceitos importantes como, por exemplo, a legitimação da Língua de Sinais, que é natural e essencial ao pleno desenvolvimento lingüístico, cognitvo e social das pessoas com surdez, reporta-nos aos preconceitos ora vigentes, valorizando estereótipos, pautados na visão da normalização”.
Por outro lado é importante lembrar que a inclusão do aluno com surdez na escola comum não implica só no uso da LIBRAS enquanto forma de comunicação, o aluno surdo precisa ser estimulado e desafiado a construir conhecimentos e desenvolver diferentes habilidades. Se o domínio da LIBRAS fosse suficiente para a aprendizagem, as escolas especiais teriam tido sucesso na escolarização significativa dos alunos surdos.
Dessa forma, precisamos pensar que existem diferentes fatores que colaboram para essa aprendizagem. Podemos citar como exemplo, a reestruturação da escola comum, a implantação de salas de recursos, uso adequado da LIBRAS, dentre outros fatores que precisam serem repensados para inclusão do alunos com surdez. Do ponto de vista da legislação temos muitos avanços para mudar a realidade da educação da PS, porém do ponto de vista prático, vivencial ainda estamos muito distantes do ideal, ou melhor, do necessário.


Bibliografia

HONORA, Márcia, FRIZANCO, Mary Lopes Esteves.Livro Ilustrado de Língua Brasileira de Sinais:desenvolvendo a comunicação usada pelas pessoas com surdez.São Paulo: Ciranda Cultural, 2009.
DAMÁZIO, Mirlene Ferreira Macedo. Educação Escolar da Pessoa com Surdez: uma rápida contextualização histórica. 2005.
DAMÁZIO, Mirlene Ferreira Macedo. Educação Escolar Inclusiva das Pessoas com Surdez na Escola Comum: Questões Polêmicas e Avanços Contemporâneos. In: II Seminário Educação Inclusiva: Direito à Diversidade, 2005, Brasília. Anais... Brasília: MEC, SEESP, 2005.

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